O passe

Saia Jesus da cidade de Jericó, acompanhado de seus discípulos e de grande multidão, quando um cego, de nome Bartimeu, começou a clamar, em altas vozes:

Jesus, filho de David, tem compaixão de mim!

Algumas pessoas ordenaram-lhe que se calasse, mas o cego, empolgado pelo desejo de ser beneficiado pelo generoso Rabi, insistia:

Jesus, filho de David, tem compaixão de mim!

Ouvindo-o, o mestre nazareno recomentou aos discípulos que o trouxessem à sua presença.

Que queres que eu faça? — perguntou-lhe.

Senhor, que eu veja.

Compadecendo-se, Jesus estendeu-lhe as mãos, tocando em seus olhos, dizendo:

Vai em paz. A tua fé te salvou.

No mesmo Instante o cego voltou a enxergar e, jubiloso, integrou-se no grupo que acompanhava o Messais.

Transfusão de energias

Jesus curou o cego de Jericó aplicando-lhe o passe magnético, terapia que desenvolveu largamente durante seu postulado, no que foi imitado pelos discípulos que, em seu nome, aliviavam males do corpo e da alma.

O Espiritismo reviveu o mesmo tratamento, em toda sua simplicidade, sem magias, sem mistério, sem ritualismo.

O companheiro que se coloca diante do paciente, impondo-lhe as mãos sobre a cabeça, é apenas alguém de boa vontade que concentra seus melhores sentimentos no propósito de favorecê-lo com uma transfusão de energias magnéticas de dois tipos:

O magnetismo humano, do próprio passista.

O magnetismo espiritual, de benfeitores desencarnados que controlam todo o processo.

A aplicação do passe do Centro Espírita é mera especialização de um dom próprio do ser humano. Todos podemos doar magnetismo curador.  Muitos o fazem, inconscientemente. Há múltiplos exemplos: a mãe que acalenta o filho inquieto ao seio; o médico à cabeceira do doente, preocupado com sua recuperação; o religioso que ora por alguém; a benzedeira que atende uma criança.

 

As duas condições básicas

 

A eficiência do passe está associada a dois fatores:

O primeiro é a capacidade do passista; como Jesus foi modelo perfeito fácil concluir que o melhor será aquele que mais se aproximar de sua orientação, desenvolvendo valores de serenidade, equilíbrio, dedicação e, sobretudo, amor pelo semelhante.

Embora os companheiros vinculados à tarefa estejam longe deste padrão, a Espiritualidade suprirá suas limitações, desde que não se acomodem às próprias fraquezas, cultivando empenho de renovação e desejo de servir.

O segundo fator, tão importante quanto a capacidade do passista, é a receptividade do paciente. Imaginemos uma transfusão sanguínea. O doador faz a sua parte, mas no momento de injetar o sangue nas veias do doente, este retira a agulha nele introduzida, inviabilizando a transferência. O mesmo podemos dizer da transfusão de energia magnética, que para completar-se exige empenho do beneficiário no sentido de sintonizar com aquele que o beneficia.

A tua fé te salvou — proclama Jesus dirigindo-se a Bartolomeu. Não se tratava de um prêmio à crença irrestrita, mas uma dramática demonstração de que é preciso confiar plenamente nos recursos mobilizados em nosso favor a fim de que possamos assimilá-los integralmente.

O complemento indispensável

Outro ponto importante a considerar:

O passe é sempre uma terapia de superfície. Pode amenizar os efeitos — doenças e perturbações — mas não atinge as causas profundas, que se exprimem em nossa maneira de pensar, nas falhas de comportamento, nos vícios alimentados. Por isso, se nos limitamos a recebê-lo, sem analisar mais profundamente as origens dos males, eles logo recrudescerão.

Saúde e equilíbrio não se sustentam em concessões gratuitas da Divindade. São conquistas que todos devemos realizar com esforço da renovação, tendo por roteiro o Evangelho. Nele há tônicos infalíveis que operam prodígios de bem-estar quando deles fazemos uso. Todos os conhecemos sobejamentos: a compreensão, a tolerância, a paciência, o perdão, a caridade, o amor, a misericórdia, a bondade…

Oportuno lembrar que frequentemente Jesus dispensava os  beneficiários de suas curas, recomendando: “Vai e não pegue mais para que não te suceda pior”.

 

Importante considerar

 

Há a questão do merecimento. Compromissos cármicos, decorrentes de nossos desatinos do passado, geralmente não podem ser removidos. Nenhum passista, por mais eficiente, nenhuma fé, por mais ardorosa, fará brotar uma perna em alguém que nasceu sem ela. Há determinados problemas físicos e psíquicos tão irremediáveis como a falta de um membro.

Mesmo assim, se cumprirmos as disciplinas do passe — fé e empenho de renovação —, ele nos beneficiará muito, revitalizando nossas forças e minimizando nossos males, para que enfrentemos o resgate do pretérito, sem tormentos e sem atropelos, com o coração em paz.

Será algo semelhante a colocar abençoada almofada sobre os ombros, a fim de que se faça mais leve a cruz de nossa redenção.

 

Sugestões para o dia do passe

 

  1. Evite atritos, desentendimentos, irritações, agressividade. Coração conturbado é “veia difícil” na transfusão magnética;
  2. Alimente-se frugalmente, evitando o sono que advém quando sobrecarregamos o estômago. É imperioso acompanhar atentamente as palestras doutrinárias que antecedem a transfusão magnética, nas quais colhemos preciosas orientações;
  3. Observe a pontualidade, porquanto o passe é o complemento da ajuda que começamos a receber tão logo o dirigente da reunião pronuncia a prece de abertura. Paciente atrasado, terapia prejudicada.
  4. Enquanto espera sua vez, fuja de conversas vazias que não condizem com o objetivo da reunião. O folheto com mensagem espírita, tradicionalmente distribuído à entrada, é um convite para que nos disponhamos a meditar em torno do tema edificante, guardando valioso silêncio;
  5. Diante do companheiro que vai lhe aplicar o passe, eleve o pensamento em oração consciente de que a ajuda maior virá do Céu. Quando fluem preces contidas, refluem as bençãos de Deus.

Texto: Richard Simonetti

 

 

 

 

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